De “Ele é tão simples, nem parece que é médico, ao receio de fim do Mais Médicos”: um estudo de caso

Rafael Gustavo de Liz, Rita de Cássia Gabrielli Souza Lima

Resumo


O estudo apresentado neste artigo identificou e analisou os fundamentos da medicina cubana, manifestados na dinâmica da atenção médica na atenção básica de um pequeno município catarinense, historicamente marcado pelo vazio ou rotatividade desta atenção, após a chegada de um médico cubano pelo Projeto de Cooperação Mais Médicos, e eventuais fronteiras. Tratou-se de um estudo de caso, qualitativo, realizado em 2015, com usuários da atenção básica, utilizando como instrumento de coleta de dados a entrevista semiestruturada. Apreendeu-se dois fundamentos: a) proposta humanística de sociabilidade à atenção básica; e b) modelo de atenção solidário. Como fronteira revelou-se a insegurança sobre a continuidade do Projeto. Ao se mostrar simples e humilde para saber como são e estão as pessoas simples, e ao inscrever a solidariedade como um valor constitutivo de sua proposta de sociabilidade, o médico cubano tem produzido encontros de qualidade com a comunidade. Como produtos sociais destes encontros, entre não subjugados, estão a abertura ao vínculo e a indução a processos emancipatórios. Há a necessidade de o Projeto efetivar um balizamento ético-político em suas relações comunicacionais, no sentido de garantir que a informação sobre seus aspectos práticos alcance o território, objeto concreto da atenção médica e básica.

Palavras-chave


Saúde coletiva; Atenção Primária; Sistema Único de Saúde

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Saúde & Transformação Social/Health & Social Change, ISSN 2178-7085, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.