Recovery: ambiguidades e confrontações

Ernesto Venturini, Maria Stella Brandão Goulart

Resumo


O artigo discute o uso e a rápida aceitação do termo recovery nas políticas de saúde mental, a partir do estranhamento da ausência do conceito no cenário brasileiro. Delineia, também, a suspeita de que os psiquiatras não teriam compreendido bem a mudança radical que esta noção representa, pois, o modelo biomédico e manicomial não tem sido colocado em questão. Explora-se, então, a contradição entre a personal recovery e a clinical recovery, bem como a necessidade de esclarecer o que significa um serviço orientado à recovery. Se considera, também, as consonâncias e as diferenças entre a noção de recovery do ponto de vista da literatura psiquiátrica dos países de idioma inglês (anglofônicos) e o da reforma psiquiátrica italiana, que, à semelhança do Brasil, propôs o fechamento dos hospitais psiquiátricos. O momento-chave da experiência italiana é reconhecido nas palavras de Basaglia, quando declara não estar interessado na doença, mas na pessoa em sua complexidade existencial e no reconhecimento dos seus direitos. As práticas da reforma antimanicomial demonstraram que, quando são reconhecidos, de forma sistemática e na prática, a autonomia de julgamento, o respeito e a escuta, as pessoas tendem a assumir a responsabilidade por sua vida e colocam-se em um processo ativo de inclusão social. Conclui-se a discussão, afirmando semelhanças e diferenças entre o conceito de recovery e a reforma antimanicomial. No caso do recovery, no entanto, o foco está destinado à potencialidade individual da pessoa, enquanto que no caso das reformas, a tensão é dirigida para a complexidade de um processo de emancipação, seja individual, seja coletivo, que se atualiza na prática da cidadania.

Palavras-chave


Recovery;Franco Basaglia; Saúde Mental; Psiquiatria Democrática; Cidadania.

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Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, ISSN 2595-2420, Florianópolis - Santa Catarina, Brasil. Todos os direitos reservados, 2018.